O dramático caso do abandono dos irmãos franceses Barthélémy e Zacharie, de 3 e 5 anos, numa zona de mato na Comporta, continua a mobilizar as autoridades judiciais e os serviços sociais de França.
Com a mãe, Marine Rousseau, e o padrasto, Marc Ballabriga, em prisão preventiva em Portugal, o futuro das crianças permanece sob total indefinição jurídica.
O antigo inspetor-chefe da Polícia Judiciária, Carlos Anjos, revelou contornos invulgares sobre a moldura familiar do caso, destacando a total ausência de uma rede de apoio afetiva ou familiar em torno dos menores.
Família Alargada Afasta-se do Processo
Até ao momento, nenhum familiar direto das crianças se disponibilizou para assumir, mesmo que de forma provisória, a custódia de Barthélémy e Zacharie. Nem avós, tios ou padrinhos manifestaram qualquer intenção de acolher os menores junto das autoridades gaulesas desde que o caso eclodiu.
Esta falta de mobilização e de envolvimento por parte da família alargada causou forte perplexidade aos especialistas que acompanham o processo. Carlos Anjos confessou-se chocado com o desinteresse dos familiares em fornecer um teto seguro às crianças, apontando ainda o contraste entre o enorme impacto mediático que o crime gerou em Portugal e a cobertura jornalística curiosamente discreta que o assunto mereceu em França.
A Situação do Pai Biológico e o Risco de Adoção
O pai biológico surge, por exclusão de partes, como a primeira hipótese na linha de sucessão para a guarda. No entanto, o seu perfil atual e as suas reais motivações estão a ser alvo de um escrutínio rigoroso por parte do Estado francês:
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Condições Precárias: O progenitor não detém um emprego estável e habita numa residência considerada inadequada e sem as condições de habitabilidade mínimas exigidas por lei para a criação dos filhos.
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Falta de Iniciativa Inicial: Carlos Anjos detalhou que o pai não procedeu a qualquer requerimento formal para reaver a guarda dos filhos, mantendo-se inerte durante o período crítico inicial após o abandono.
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Suspeitas sobre Subsídios: Há forte suspeita, por parte dos analistas do caso, de que o interesse tardiamente manifestado pelo pai possa estar indexado ao acesso aos avultados apoios e subsídios sociais que o Estado francês concede a agregados com menores a cargo.
Um Processo que Pode Arrastar-se por Anos
Os dois irmãos encontram-se atualmente à guarda estrita dos serviços sociais franceses, desconhecendo-se se foram colocados numa instituição pública ou integrados temporariamente numa família de acolhimento.
A prioridade absoluta da justiça francesa passa por esgotar todas as vias de avaliação do pai e de outros parentes próximos. Só após a exclusão definitiva de toda a linha familiar é que as crianças serão encaminhadas para o sistema de adoção permanente. Embora a premissa base seja a de manter os irmãos unidos na mesma habitação, Carlos Anjos advertiu que, na ausência de candidatos dispostos a adotar ambos em simultâneo, a justiça poderá ser forçada a decretar a adoção separada de Barthélémy e Zacharie.